segunda-feira, 1 de março de 2010

Eterna mudança

Às vezes parece que a realidade não é suficiente. É como se, além da matéria, existisse algo mais que se deseja. Como disse a escultora francesa Camille Claudel, "há sempre algo de ausente que me atormenta".
Sugestão de trilha sonora: Distraída pra Morte, de Otto

Poucas nuvens interrompiam o azul do céu naquela manhã. Cenário propício à exibição de pássaros ousados em vôos rasantes. Pretos, brancos e cinzas foram as cores que Estela conseguiu distinguir entre as manchas que dançavam no ar seco e instável. Virna era uma mulher interessante, mas, naquele momento, outros assuntos chamavam mais a atenção da amiga que, suavemente, resplandecia ao seu lado.

Não foi preciso muito tempo para que as cobranças surgissem:


- Você já não é a mesma, sabia?


- Não?, Estela respondeu, ainda aérea. Mas Virna estava mesmo disposta a prosseguir:

- Não! Há algo estranho com você, Estela. Já não é minha amiga?

- Ora, por favor!

O relógio que se via no alto do prédio imposto em frente à praça das Ilusões já marcava 12 horas, o que serviu de mote para que Estela fugisse daquela conversa enfadonha, sem ter que dar muitas explicações.

- Marquei de almoçar com um amigo, Virna. Nos falamos depois, OK?

Após o abraço frio, sem pressa, Estela se levantou e caminhou em direção ao centro comercial da cidade. As cobranças não eram apenas exteriores e isso era visível no semblante da mulher esguia, de cabelos cacheados e pretos, olhos tímidos e boca trêmula, que deslizava entre a multidão.

Já não sou mais a mesma? Realmente, não! Mas o que importa? Deixará de me amar por isso? O tempo pesou mais pra mim, minha querida. Já você... Ah Virna! Você não mudou nada... Continua a mesma mulher que conheci há tantos anos, ainda com o sorriso doce e a atenção toda focada em mim. Amo-te tanto assim, como és... Não sei se continuaria a amar-me, se mudasse...

O vento gemia baixinho e Estela se dividia entre o desejo de contemplação e as indagações aguçadas pela companheira. Alguns minutos de caminhada e lá estava ela adentrando o restaurante Invente. O local era simples, aconchegante. A luz amena e o cheiro irresistível de diversos temperos misturados se espalhavam por todo o ambiente. Sentado no canto direito do salão, Hígor acenava com frenesi, o que apressou os passos da mulher para quem todos no salão olhavam.

De frente pro amigo, Estela percebeu que novamente não resistiria ao impulso de ser ela mesma. Hígor tentou, mas não conseguiu prendê-la nem por cinco minutos. Livre, ela ganhou o ar. Indo pra lugares desconhecidos, ocultos, enigmáticos, irresistíveis. Estela tinha o corpo presente, mas sua alma já não lhe pertencia. Ao sabor do vento, mudava, de  caminho, de sentido, de tempo, de espaço e o que mais seu coração quisesse.