terça-feira, 27 de junho de 2017

As verdades que nos constituem

 Trilha sonora sugerida: o som de pássaros 
                                       

É uma noite fria, muito fria. Uma noite que o chá quente e o edredom grosso não conseguiram aquecer. Na busca por um pouco de calor, Lia remexe na memória e acha a lembrança de algo que estava à sua espera. Senta diante do computador e começa a escrever.

Esta é uma escrita que começa com uma lembrança. A lembrança de um sonho no qual Lia era uma mulher velha, deitada sozinha numa cama cujo conforto e tamanho excediam o necessário. Lia tinha essa sensação quando uma moça apareceu e devagarinho se encostou na porta do quarto. Era uma moça linda e no sorriso dela Lia viu a filha que sempre quis ter.

Esse é um sonho já bem antigo, mas ainda tão vivo na memória! Um sonho que fica lá quietinho, esperando ser lembrado pra lembrar a verdade que carrega: a de que o amor é contentamento.

Mas o sorriso da filha de Lia carrega outra verdade. Por isso, Lia escreve sobre ele. Não porque teme esquecer essa verdade, mas porque não consegue parar de se lembrar dela.

Sabemos tão poucas coisas neste mundo. Entre elas, quais são as nossas verdades, aquelas que nos constituem. Na verdade, Lia se constitui neste sonho e é por isso que escreve sobre ele. Escreve porque escrever é juntar pedacinhos de si, que às vezes se espalham por aqui e ali, e que ela precisa ajuntar pra, ao olhar o mosaico construído com suas próprias mãos, saiba a verdade que carrega, ao escolher ser quem é.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Um cortinado a rodopiar

Trilha sonora sugerida: o silêncio

Encostada no parapeito do terraço ela olha a lua e explode. Gostava de ir ali sempre que queria se encontrar. E sempre se encontrava quando conseguia acalmar o coração ao ponto de ver-se com oito anos, deitada na cama da avó a ouvindo falar, sem prestar atenção, porque, ao rodopiar o cortinado, rodopiava também a sua imaginação. Assim, ela rompia os limites do tempo e do espaço e ia pra momentos e lugares distantes...Aonde estaria daqui um ano, dois, dez? Entendia a contingência da vida, mesmo que não soubesse dar nome pra aquela sensação de que a vida corria solta, feito cavalo que não se deixa arriar.

Se conseguisse manter o coração calmo, sentiria o vento frio daquela noite, quando um banco na ilha que dividia a avenida em duas mãos foi o lugar pra aonde a mãe a levara, enquanto esperavam o ônibus passar. Tinha lá seus dez anos. Deitada com a cabeça no colo da mãe, ouvia-a falar sobre banalidades, mas o que prendia mesmo sua atenção era a luz do poste que lembrava um cortinado a rodopiar. O mundo havia girado rápido demais: voltara a morar com a mãe, como queria e, agora que estava ali, sentia saudade da avó, das primas, da casa cheia, do cheiro da terra molhada, do pedaço do céu que nunca mais vira.

Olhando pra lua era fácil sentir a dureza do chão da carroceria do carro em movimento, que sacolejava duído ao passar pela estrada de chão esburacada. Naquele dia a lua também estava cheia e ela só conseguia sentir gratidão por estar ali, diante de uma longa estrada. E foi durante o caminho que o cortinado virou mundo e pôs-se de novo a girar, levantando a poeira que desenhava o sentido da vida, de uma vida que longe dali fazia cada vez menos sentido.

Às imagens do cortinado a girar voltava sempre que as coisas ficavam confusas. E era no vai-e-vem daquele emaranhado de linhas carregado de imaginação e memória que se achava, aonde quer que estivesse...

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Uma multidão

Sugestão de trilha sonora: Roads, de Portishead


Ana olha para o cursor piscando na tela em branco e lembra que houve um tempo no qual escrever assim era mais fácil. No tempo em que, ao invés do piscar de um cursor numa tela em branco, o que precedia a escrita era o encontro do lápis com o papel. E com esse encontro, como acontece com qualquer encontro, a vida se enchia. Naquele tempo, escrever era como quando alguém te chama pelo nome e você não pode fazer outra coisa, que não responder.

Sempre amou a saudade e o desejo, talvez por isso deixava as coisas pelo caminho...pra sentir falta delas e querê-las de novo. Não lembra quando, aonde nem como deixou de escrever assim, só sabe que o vazio que ficou a faz ter vontade de escrever assim de novo.

Desliza os dedos pelo teclado, olha pro lado, hesita. Faz tanto tempo...e é estranho como isto parece tão deslocado e necessário agora. A vida é outra e ainda é a mesma. O que ficou lá trás continua aqui. Ainda vive como quem sonha e sonha como quem não vai acordar. E é evidente que está imersa em contradições, das quais talvez só a escrita a salve.

É tarde da noite, de uma noite longa e fria, uma noite da qual pouco se espera. Mas o que é mais irresistível do que o inesperado? O barulho chato se mistura com um cheiro enjoativo, fazendo daquele lugar, para o qual se mudara há pouco tempo, ainda mais incômodo. Não se sentia em casa ali. Mas quando é que se sentira em casa em um lugar com paredes? Casa é mesmo lá, aonde o vento pode correr solto, feito menino sem estribeira.

Sentada no canto, deixa as palavras invadirem a sala e devorarem o óbvio. Escreve. Uma palavra, duas, várias. Juntas, elas formam frases, parágrafos e algum sentido. Sente, enfim, que pode se abrir e se deixar devorar por um sem fim de histórias que vão tomando lugar até se constituírem em uma multidão, que está bem ali, diante dela, pedindo para ser contada.

Encara uma delas, a história de Ana. Que história é essa? Era só a história de uma mulher como outra qualquer, que não sabia o que fazer com sua dor e por isso a carregava consigo pra aonde quer que fosse. Como ele podia não a amar? Nem ele sabia a resposta, então, não valia a pena perguntar. Só se afastar.

Mas Ana não era feita só de dor. Tinha um tanto de alegria também. E foi esse sentimento que encontrou quando entrou no carro e lembrou que não tinha pra aonde ir. Que coisa, Ana! Ligou o carro mesmo assim. Por que não ter a liberdade como destino, ora!? Topou a parada. E foi no caminho que se deu conta que o que importava mesmo era ir.

Pegou uma via rápida. Naquela hora da tarde, havia poucos carros e isso fazia Ana se sentir ainda mais sozinha. Parou o carro num lugar aonde costumava ir quando era mais jovem. Desceu, olhou ao redor e se viu cercada por uma multidão de desconhecidos, dos quais se sentia tão próxima. Sorriu. Não porque achasse graça naquilo, mas porque achara uma verdade. Sorriu mais uma vez e teve certeza: era isso que tinha ido buscar ali.