Esse conto não é novo. Já tem cerca de três anos. Mas ainda gosto muito dele. Dos meus velhos rabiscos, este é um para o qual sempre volto. Não apenas pela história em si, mas, principalmente, pelo que ela me faz lembrar. Houve um tempo em que eu sonhava mais e acreditava mais também...Acho que preciso mesmo resgatar os velhos sonhos, às vezes, são eles que nos lembram quem somos...
Sugestão de trilha sonora: Ce Matin La, de Air
Livros, papéis e uma xícara de café sobre a mesa. No canto direito, a velha máquina de escrever, no esquerdo, a quase ausência da estante arranha-teto. Pouca luz e muitas sombras espalham-se pela sala. De tudo, fica a impressão de que uma lógica interna muito bem fundamentada rege o lugar. Vapores perceptíveis que exalam da compenetrada mulher presa ao telefone, translúcida entre a penumbra.
Sim, a história é interessante. Claro, claro, existe uma razão para cada palavra do texto. Eu espero que a trama culmine em um final surpreendente. É tudo que um leitor mediano pode querer. OK, eu logo termino.
Por detrás da porta alguém espreita. Fim da conversa, espaço para aliviar o coração. Meia noite e você ainda aqui? Por que passa as manhãs, as tardes e as noites nesta sala fria, sozinha? Esses papéis são tudo? São a vida? Não tenho que responder a interrogatórios. Só preciso de um final. Depois de tantos pontos, apenas mais um.
Entre o sentimento e o argumento, predomina o cansaço. É ele que despedaça as tentativas de redenção. Amanhã, talvez Laura seja feliz. Hoje, luz apagada, portas cerradas e combustão no motor. Pelo retrovisor, Ester acompanha o refúgio distanciar-se. A sua casa estava a dois quarteirões, mas naquela noite, ela preferiu o improvável.
Fez o contorno e subiu a avenida principal, na direção contrária a que sempre seguia. A essa hora da noite, na companhia exclusiva do vento, a Ponte do Ouvidor resplandecia toda a sua magnitude. Pena que a mente de Ester não estava aberta à beleza.
Laura esta encurralada. Como quebrar as grades que ela construiu para si, se ela suplica que não as quebre? Ela não quer ir além disso. Seus pés a levaram, não sou eu que a tirarei de lá. Sim, a vida são papéis e o que mais poderia ser?
Firmemente apoiada no parapeito da ponte, Ester era a imagem da determinação. Mas em seu íntimo ela era só dúvida. Pare de negar! Laura deve mesmo morrer.
Sob o despontar da manhã, Ester retornou à sala alugada no centro da cidade. E sem hesitar apontou: dois tiros no peito. Crime passional. Laura não sabia, mas seu amante era seu maior inimigo. Fim de página e ponto final. Ah! Tinha que ser. Você quis assim, Laura.
Desconsolo e cigarro na boca. A janela aberta convida Ester a mais uma trama. De onde estava, a vista alcançava boa parte da cidade. Na praça, em frente ao prédio, um casal se beija. O mundo de Ester move-se. O desejo de criação a toma por completo. Papel em branco na mesa. Novamente, em busca do coelho branco.