terça-feira, 24 de agosto de 2021

Gritaram-me



Como o fogo que queima, a faca que corta, a batida que arde, assim era aquela palavra pra Lia. Um som que entrava pelos ouvidos e atingia em cheio o coração. A palavra vinha da prima, com quem queria sempre estar. A mesma que um pouco antes abraçara e com que ela se sentia a menina mais amada deste mundo. Mas, ao ouvir aquela palavra, Lia só queria correr pra bem longe dali, pra aonde a dor que aquela palavra causava não pudesse mais machucá-la. Ela não entendia bem o por quê. Só sabia que aquela palavra lhe dizia algo que ela não queria ser, algo que parecia ruim ser. Mas, deus, tudo isso era confuso demais pra uma menininha de seis ou sete anos.

Nas palavras da mãe Lia achava conforto. Um conforto que vinha da sensação de que ela era algo bom, não o melhor que alguém poderia ser, mas algo de que as pessoas poderiam gostar. Mas as palavras da mãe não poderiam confortar o coração de Lia para sempre, afinal, existia um mundo lá fora. Um mundo cheio de palavras más. E, com seus treze ou quatorze anos de vida, Lia já era grande o bastante pra entender porque algumas palavras doíam tanto assim. 

Nessa idade, Lia não queria mais correr das palavras, queria estar, dançar, amar com elas. Nessa idade, ela entendeu que as palavras nunca eram más ou boas. Elas também não eram neutras. As palavras eram cavalos selvagens que nos levavam pra mundos de linguagem, ambíguos e instáveis, onde o fogo que queima também podia gelar, a faca que corta também podia juntar e a batida que arde também podia aliviar