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| Trilha sonora sugerida: o som de pássaros |
É uma noite fria, muito fria. Uma noite que o chá quente e o edredom grosso não conseguiram aquecer. Na busca por um pouco de calor, Lia remexe na memória e acha a lembrança de algo que estava à sua espera. Senta diante do computador e começa a escrever.
Esta é uma escrita que começa com uma lembrança. A lembrança de um sonho no qual Lia era uma mulher velha, deitada sozinha numa cama cujo conforto e tamanho excediam o necessário. Lia tinha essa sensação quando uma moça apareceu e devagarinho se encostou na porta do quarto. Era uma moça linda e no sorriso dela Lia viu a filha que sempre quis ter.
Esse é um sonho já bem antigo, mas ainda tão vivo na memória! Um sonho que fica lá quietinho, esperando ser lembrado pra lembrar a verdade que carrega: a de que o amor é contentamento.
Mas o sorriso da filha de Lia carrega outra verdade. Por isso, Lia escreve sobre ele. Não porque teme esquecer essa verdade, mas porque não consegue parar de se lembrar dela.
Sabemos tão poucas coisas neste mundo. Entre elas, quais são as nossas verdades, aquelas que nos constituem. Na verdade, Lia se constitui neste sonho e é por isso que escreve sobre ele. Escreve porque escrever é juntar pedacinhos de si, que às vezes se espalham por aqui e ali, e que ela precisa ajuntar pra, ao olhar o mosaico construído com suas próprias mãos, saiba a verdade que carrega, ao escolher ser quem é.

