terça-feira, 4 de agosto de 2009

Aonde está a chave?

Revisitando minhas velhas lembranças, veio-me esse conto. Nesta manhã, Lembrei de tê-lo escrito e, em seguida, lembrei também de tê-lo perdido. Ainda bem que um também velho amigo guardou! Eis um benefício em compartilhar seus devaneios! 

Sugestão de trilha sonora: Isolate, de Moby

Lançou suas angústias no silêncio, penteou o cabelo e voltou a sorrir. Ainda lhe restavam duas horas e quinze minutos. Tempo suficiente para recuperar a lucidez, amarrar o cadarço e seguir rumo à apresentação de mais uma palestra.



Mas essa não era só mais uma palestra. A nata da intelectualidade estaria lá. Até mesmo aqueles que riram e aqueles que ficaram furiosos quando Daniele anunciou, pela primeira vez, sua nova teoria da evolução. Após 10 anos de trabalho no anonimato, ela agora alcançara seu principal objetivo. Demorou, mas, enfim, veio o reconhecimento. E esta noite será a sua coroação.


Ilze e uma multidão de curiosos a aguardavam no auditório da universidade. Mas eu sei que ela não virá. Só não consigo entender o que pode ser mais importante para Daniele do que a sua coroação? Não que ela seja completamente narcísea, mas, além de acreditar na importância da ciência para a humanidade e em outras coisas do tipo, ela sempre desejou ardentemente ser reconhecida.

Talvez, lá no fundo, esse tenha sido o principal combustível de sua busca alucinada por superar Darwin. Agora, quando todos estão de ouvidos e mentes abertas para ouvir o que ela diz a ninguém há anos, Daniele não quer mais falar. Algo movimenta os compartimentos estanques do seu interior. Eu sei. Seus olhos, antes imóveis, não conseguem mais se fixar. Algo, que não ela mesma, nem a humanidade, chama a sua atenção. Mas o quê?

Uma hora para começar a palestra e os cadarços ainda estavam desamarrados, a lucidez, então, já beirava os territórios do irrecuperável... Sentada no velho sofá da sala com os olhos perdidos e as mãos geladas, Daniele esperava a sua salvação. Na mente uma avalanche de pensamentos, que ela não ousaria dizer em voz alta nem para si mesma.

Se essas palavras têm algum sentido, onde ele está? A razão libertou o homem dos mitos e lhe mostrou a verdade. Está escrito no papel. Mas o que a mão escreveu a boca não pode mais dizer. Porque a angústia impôs o silêncio. E ela não é forasteira. Se tivesse visto mais do que te mostraram, teria notado: o mistério sussurra.

Até onde a evolução dos primatas nos levará? As perguntas essenciais não foram respondidas. A sua razão se tornou mais um mito. O seu deus também morreu e não foi Nietzsche quem o matou.

No peito de Ilze o coração estava disparado. Toda aquela gente esperando há uma hora unicamente para ver Daniele. E nenhuma explicação para o atraso. Há algo errado! A possibilidade de que pudesse ter acontecido algo a Daniele fez Ilze tremer. Até para o almoço de domingo ela nunca se atrasou...

Isso é normal! Não se preocupe, Ilze! Você sabe o quanto Daniele é perfeccionista. Ela deve estar reforçando os pingos nos is, relendo novamente o texto. Nada mais natural... Ainda mais hoje! Tome um pouco de água! E não toque nesse celular. Se não o nervosismo vai lhe subir a cabeça. As pessoas estão acostumadas com isso. O que é uma hora de atraso? Acalme-se. Não se precipite, Bernardo pensou em dizer, mas Ilze já atravessava o auditório rumo à porta de saída.

Na velocidade de quem conhece o mal ou o bem que se pode fazer em um minuto, Ilze chegou ao apartamento onde morava com Daniele. Assim que pôs os pés no saguão percebeu que perdera o elevador. Esperar sua volta, nem pensar. Quanto tempo ele poderia demorar subindo e descendo os quinze andares...

Correu às escadas. Cinco minutos, 12 andares. Diante da porta trancada, procura pela chave. Onde, onde, onde ela está?

Ao entrar no apartamento, encontrou sua memória. Daniele! Perdoe-me! Esqueci completamente! A chave... Você está sem a chave! Não posso acreditar, por que não me ligou? Tudo culpa minha. As pessoas a esperam. Vamos! Ainda há tempo. A sua carreira depende disso.

Um minuto foi o tempo necessário para que a lucidez de Daniele regressasse. Claro! A chave... Ainda bem que você se lembrou, Ilze!

Um comentário:

  1. Diabo de chave. Toda vez que saio de casa, volto pra pegá-la. Devia ter uma chave cerebral pra não me esquecer. Ou será melhor esquecer a chave??? Ehehehhe!

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